Minha velha amiga

As vezes eu sinto falta dela. As vezes eu agradeço que esteja longe de mim. Essa é a minha velha amiga, a que nunca me abandona e que apenas dorme, voltando nos momentos menos oportunos, que mais são dolorosos pra mim...
Ela me sufoca, me agarra com as pernas e suga toda a cor dos meus olhos. Quando ela está aqui comigo, o mundo fica mais preto e branco, bem e mal, ying e yang. Tudo parece sem vida quando está sentada ao meu lado. Mas sua companhia me fortalece, a pesar de tudo. Um osso sempre se recupera mais forte depois de quebrado.
Às vezes ela só fica quieta me observando, às vezes ela vem me dar a mão e me leva para o nosso lugar mágico. Nesse lugar, somos só eu, ela e uma multidão desesperada a nossa volta. Ficamos nós duas olhando para o rio passando sobre meus pés, me convidando para conhecer seu seio lamacento e lúgubre.
Sintia que um dia ela iria me convencer. Na verdade, houveram três vezes que ela me convenceu. Uma eu conheci a torrente escarlate que jorrava de dentro de mim. Noutra, experimentei os olhos fendidos de uma bela serpente de pele lisa e dentes macios, que delicadamente deslizaram pela minha pele enquanto sentia seu líquido gelar meu corpo num torpor inimaginável. Por último provei de um misto de comprimidos que fizeram o mundo se tornar mais preto que branco e, assim, pude conversar com ela.
Lá naquele limbo, ela me disse que gostava da minha companhia e que, depois de tantos anos, queria saber se eu desejava encontrá-la onde vivia. A tentação de largar tudo pra trás era enorme, porém, uma pequena luz azul apareceu entre eu e minha velha amiga. Essa luz me levou para longe caminhando por corredores estranhos que mostravam cada um dos melhores momentos da minha vida. O mundo me parecia tão colorido e feliz ali, eu parecia tão feliz e contente com todos a minha volta se divertindo...
No fim do corredor, a luz tomou a minha forma, meu rosto e meu corpo envolto de um vestido branco com vários retalhos de memória em em mim habitava. Atrás de mim, minha velha amiga segurava minha mão e eu sabia que momento era aquele. Eu teria que finalmente escolher entre minha velha amiga, que há tanto tempo me acompanhava, e minha nova amiga, que me mostrou coisas novas. Assim, com um último olhar para minha velha conhecida, que sorria para mim, agarrei com força minha própria imagem e a luz irradiou a minha volta, destruindo toda escuridão.
Meus olhos se abriram e uma lágrima desceu. Sentirei sua falta, velha amiga, mas nós sabemos que foi melhor assim...

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